"Do que fugir. Como se houvesse fuga. Só no sentido musical, talvez, como as fugas de Bach, em que uma voz perseguia a outra, e os caminhos pareciam ganhar autonomia, mas teriam de chegar a um acorde final. Haruki sabia tocar fugas de Bach ao piano, embora fizesse anos que já não chegava perto do instrumento. Será que ainda era capaz? Disseminar melodias que se despistavam e procuravam, como amantes em jogos eróticos? E o que Bach pensaria disso, jogos eróticos - ele, um homem de deus? Era possível fazer essa divisão entre as coisas do corpo e as do espírito, ou ambas estavam (eroticamente) imbricadas, como a linha melódica de uma fuga? Mas o espírito, Haruki pensava, morava nas células nervosas, e o corpo era substância volátil, como álcool - apenas demorava um pouco mais para se volatilizar."
"Recair significa cair de novo. No poço sem fundo da felicidade, no abismo renovável da dor e do não. A vida: atençao ao prazo de validade. A vida: dosagem recomendada, vide bula. Testada dermatologicamente, testada oftamologicamente em sessões de tortura nos animais de laboratório. Tantas capsulas por dia, de acordo com o peso e com a idade. Em caso de superdosagem, recorrer à lavagem estomacal. Aconselhável a consulta ao seu médico antes de usar."
"A dor. Verdade indesejável num mundo de analgésicos. Nunca, a dor. Jamais senti-la quieta e quente no meio do corpo, jamais deixar que estremeça nas mãos ou sue frio na testa, jamais permitir que a dor doa.
Esse é o grande engodo. Minha dor é minha: marca na pele, feito a vermelhidão da queimadura. Existe uma visita na sala de estar. A dor, senhorinha sentada no canto do sofá.
Isso, talvez, era o que mais atrapalhava a relaçao com o mundo: o preconceito generalizado contra a dor. E haja comprimido de todas as cores e formatos, garrafas de alcool e outras drogas lícitas, drogas ilícitas, entorpecentes de tantas naturezas. Haja poltronas diante da televisão nas noites de domingo, enquanto um espetáculo de insanidades desliza pela tela. Haja disfarces. No fundo, todos eles com o mesmo disfarçado objetivo: que a dor não doa. Que a dor se cale, se encolha, se submeta, se amordace, se domestique."
Adriana Lisboa - Rakushisha
sexta-feira, 26 de março de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Do porque sinto o vento com minha xícara vazia
"Sei que sou como a maioria dos homens, para os quais a filosofia da vida não vai além daquilo que ensina a experiência dinamica do prazer-dor. Eu sou tambem como as crianças que não entendem o mundo dos adultos e brincam de ser adultos nos faz-de-contas de seus jogos infantis. Eu não entendo nem explico a vida, mas brinco de vive-la nos meus faz-de-contas dos meus jogos adultos que não visam decifrar esfinge alguma, mas sim curtir o mais possível com a cara delas."
Roberto Freire
Sem tesão não há solução
Roberto Freire
Sem tesão não há solução
do porque não tenho culpas
" Nós não lutamos por um mundo no qual a garantia para não se morrer de fome troca-se pelo risco de morrer de tédio."
Raoul Vaneigem
Raoul Vaneigem
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
sábado, 26 de dezembro de 2009
Do porque não preciso de porquês
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavraS
ussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.
É o que me interessa
Lenine
Labiata
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavraS
ussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.
É o que me interessa
Lenine
Labiata
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Do porque dos meus silêncios
" Posso ter demorado para perceber. Não me culpo. Saber antes não me traria nenhum bencefício - falta-me jeito para fazer sala à vontade.
A mulher não gosta de dar respostas. Explicar, argumentar, avisar, sinalizar, mostrar com o dedo. A vida não pode ser resumida aos três sinais do semáfaro.
A mulher não deseja ser mãe de seu homem.
Não deseja ser professora de seu homem.
Não deseja ser tia de seu homem.
Muito menos avó, com chá de boldo na cama.
Não fica excitada de colocá-lo de castigo.
A mulher não deseja que ele concorde, longe disso.
Deseja ser compreendida. Se o homem diz que a compreende, por que ela é obrigada a convencê-lo a todo momento? Não tem lógica.
A mulher termina enfastiada com a idéia de repetir a mesma ladainha: " Você não me entende?". E ele não entende, apressa entender, que é diferente.
A mulher deseja silencia, mas não silenciar um silêncio qualquer, um silêncio rispido, um silêncio grosseiro, de talher a cabeça baixa, e sim um silêncio satisfeito, um silêncio de orla, um silêncio de calçadão.
Quando a mulher se irrita, não lhe faltam argumentos; ela apenas desistiu de falar. E o homem pensa que ela, enfim, aceitou a sua opinião.
A mulher não deseja dar a resposta, está esperando a reação dele.
(...)
Não adianta fazer ciúmes ou fingir remorso. Teatro amador é na escola.
(...)
É arriscar ou encenar um falsa sapiência durante cinco dias, cinco meses, cinco anos até acontecer a separação.
A paciência tem limite, ora bolas.
Ela não vai ficar dando a resposta infinitamente. Tampouco deseja que o homem memorize a resposta.
Repitir o que ela falou atesta que ele não estava ouvindo. A tática de reiterar a última frase para fingir atenção não funciona mais.
(...)
A mulher não deseja a resposta certa; não há resposta certa."
...
Carpinejar - A resposta em
O Amor Esquece de Começar
(e o poeta que desculpe o desrespeito aos parágrafos)
A mulher não gosta de dar respostas. Explicar, argumentar, avisar, sinalizar, mostrar com o dedo. A vida não pode ser resumida aos três sinais do semáfaro.
A mulher não deseja ser mãe de seu homem.
Não deseja ser professora de seu homem.
Não deseja ser tia de seu homem.
Muito menos avó, com chá de boldo na cama.
Não fica excitada de colocá-lo de castigo.
A mulher não deseja que ele concorde, longe disso.
Deseja ser compreendida. Se o homem diz que a compreende, por que ela é obrigada a convencê-lo a todo momento? Não tem lógica.
A mulher termina enfastiada com a idéia de repetir a mesma ladainha: " Você não me entende?". E ele não entende, apressa entender, que é diferente.
A mulher deseja silencia, mas não silenciar um silêncio qualquer, um silêncio rispido, um silêncio grosseiro, de talher a cabeça baixa, e sim um silêncio satisfeito, um silêncio de orla, um silêncio de calçadão.
Quando a mulher se irrita, não lhe faltam argumentos; ela apenas desistiu de falar. E o homem pensa que ela, enfim, aceitou a sua opinião.
A mulher não deseja dar a resposta, está esperando a reação dele.
(...)
Não adianta fazer ciúmes ou fingir remorso. Teatro amador é na escola.
(...)
É arriscar ou encenar um falsa sapiência durante cinco dias, cinco meses, cinco anos até acontecer a separação.
A paciência tem limite, ora bolas.
Ela não vai ficar dando a resposta infinitamente. Tampouco deseja que o homem memorize a resposta.
Repitir o que ela falou atesta que ele não estava ouvindo. A tática de reiterar a última frase para fingir atenção não funciona mais.
(...)
A mulher não deseja a resposta certa; não há resposta certa."
...
Carpinejar - A resposta em
O Amor Esquece de Começar
(e o poeta que desculpe o desrespeito aos parágrafos)
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Do porque (eu descobri?!) poucas pessoas gostam de gatos e (não) cães ou do porque os animais se parecem com seus donos...
"Quem cuida de gato ama a sua solidão. O felino fica quieto pela casa, como um ruído de osso, um ruído interno do corpo.
(...)
Nem com um nome ele se torna doméstico.
(...)
Quem cuida de cachorros gosta de escapar de sua solidão. Sair para passear, andar com ele com coleira, dividir o cumprimento, o tapete da rua.
(...)
O cão é dispersivo, late para estar em todos os lugares, e não está em nenhum; diferente do gato. Alerta, fala mais do que escuta"
Carpinejar
O amor esquece de começar
(...)
Nem com um nome ele se torna doméstico.
(...)
Quem cuida de cachorros gosta de escapar de sua solidão. Sair para passear, andar com ele com coleira, dividir o cumprimento, o tapete da rua.
(...)
O cão é dispersivo, late para estar em todos os lugares, e não está em nenhum; diferente do gato. Alerta, fala mais do que escuta"
Carpinejar
O amor esquece de começar
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